Carol Oliva

Luto perinatal: o que aprendi ao perder meu filho na gestação

Existem dores que a gente acredita que só acontecem com os outros. Eu também acreditava nisso, até o dia em que parei de acreditar. Este texto é sobre o luto perinatal, sobre o meu filho João e sobre o que essa perda me ensinou. Escrevo para você, que talvez esteja vivendo algo parecido e precisa ouvir que não está sozinha.

O dia em que minha vida se dividiu em antes e depois

Em 2012, eu estava grávida do João, meu primeiro filho. Vivia a gestação com esperança, planejando, sonhando, preparando o quarto. Procurei uma clínica de parto humanizado porque queria viver a maternidade de forma consciente e segura. Lia, estudava, me informava. Tudo parecia pronto para recebê-lo.

Durante a gravidez, houve momentos em que senti que algo não estava bem. Eu observava meu corpo, percebia mudanças, relatava os sintomas. Mas, muitas vezes, minhas preocupações eram minimizadas. Eu ouvia que era normal, que era impressão minha, que fazia parte da gestação.

Na trigésima quarta semana, quando eu já estava no oitavo mês, o coração do João parou de bater.

Não existe preparação possível para receber uma notícia assim. Não existe livro, teoria ou formação que prepare alguém para isso. Existe apenas um silêncio impossível de descrever para quem nunca o passou por isso.

O luto que ninguém vê

Um dos momentos mais difíceis foi perceber o quanto o luto perinatal ainda é invisibilizado. Em diferentes situações, ouvi comentários que minimizavam a morte do meu filho, como se o tempo de vida dele determinasse o tamanho do amor que eu sentia.

Foi aí que aprendi algo que carrego até hoje: o sofrimento não precisa ser corrigido para ser acolhido. Uma dor não precisa ser “resolvida” para ser legítima. Ela precisa, antes de tudo, ser reconhecida.

Os fiscais do luto

Muitas pessoas tentavam definir o tempo da minha dor, a forma como eu deveria viver o meu luto ou o momento em que eu deveria seguir em frente. Eu costumo chamar essas pessoas de fiscais do luto: pessoas que acreditam saber como o outro deveria sentir, sofrer ou se recuperar.

Cada pessoa vive suas dores de um jeito único. Ninguém tem o direito de determinar como alguém deve sentir, quanto tempo deve sofrer ou qual seria a forma “certa” de viver uma perda. Não existe forma certa. Existe a sua.

O que me ajudou a continuar

A virada não aconteceu em um único dia. Foi um período. Mas houve coisas que me sustentaram.

Uma delas foi a minha mãe, que um dia sentou ao meu lado e me lembrou de quem eu era antes que a dor ocupasse todos os espaços. Outra foi a fé em Deus e Nossa Senhora Aparecida, que precisei reconstruir aos poucos, no meu tempo. E outra, fundamental, foi o cuidado profissional: a minha psicóloga e a minha psiquiatra me ajudaram a entender que pedir ajuda não é sinal de fraqueza, mas um ato de coragem e de amor por si mesma.

Aprendi também a lidar com uma emoção difícil: a raiva. Por muito tempo senti revolta. Com o tempo e com apoio, fui redirecionando essa energia, dos culpados para a busca de sentido, para os estudos e para o trabalho que faço hoje.

Ser mãe é para a eternidade

Uma mulher não deixa de ser mãe porque seu filho morreu. Não importa se a perda aconteceu no início da gestação, no meio, no fim ou depois do nascimento. O vínculo permanece. O amor permanece. A maternidade permanece.

Não existe ex-filho. E, por isso mesmo, também não existe ex-mãe.

Quando meu segundo filho, o Rafael, nasceu, prometi que, desde o primeiro dia, ele saberia que não era filho único. Que tinha um irmão, o João, que foi profundamente amado. Carrego os dois comigo, cada um do seu jeito.

O que eu gostaria que você soubesse

Se você está vivendo uma perda como essa, eu queria poder te dizer pessoalmente: você não está sozinha, e o que você sente é real, mesmo que o mundo ao redor não compreenda.

Hoje eu sei que existem dores que não precisam ser superadas. Elas precisam ser integradas à história de quem as viveu. A recuperação não acontece quando a dor desaparece, mas quando ela deixa de ser a única protagonista da sua história.

A vida não volta a ser como era antes de certas perdas. O que acontece é que aprendemos, pouco a pouco, a construir uma nova forma de existir, carregando conosco aquilo que jamais deixará de fazer parte de nós.

Porque algumas histórias não terminam quando algo morre. Algumas histórias renascem ali.

Se você perdeu um bebê e sente que precisa de um espaço para falar sobre isso, com acolhimento e sem pressa, eu posso caminhar com você. Fale comigo pelo WhatsApp.

Carol Oliva | Psicóloga Clínica | CRP 04/43613

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima